Ele era Recife e Recife era ele. Criado em vários lugares mas estabelecido e decidido a viver aqui por vontade própria pelo resto da vida.
Trinta anos, trabalhava como designer, ganhava uma grana boa e tinha autonomia na utilização do seu tempo. Por isso respirava a cidade e ela circulava nas veias.
O que quero dizer, é que Luciano aos dezenove anos ao se mudar com a família para a capital pernambucana, se apaixonou completamente, nunca tinha sentindo efervecência cultural igual... A cidade tem tantos sons, tantos gostos e cores... ele podia afirmar com conhecimento de causa que era único mesmo... já tinha morado em São Paulo, Rio, Londres e Nova York.
Todas essas cidades eram maravilhosas, mas nenhuma tinha a lama e o caos de que Chico Science falava. Por isso, após 11 anos aqui, ele se sentia de fato em casa.
Dia de terça-feira a noite estava sempre no Pátio de São Pedro, escutando os afoxés. Nas quartas-feiras era noite de dançar o forró mais legítimo no Xinxim da Baiana em Olinda.
Sexta-feira você sempre ia encontrar Luciano no Recife Antigo curtindo o som do Traga a Vasilha.
No sábado ele variava... era tanta coisa que se podia fazer no sábado... as vezes o coco no bairro de Guadalupe, cerveja gelada na Bodega de Veio, etc etc. Domingo era dia de se queimar na praia de Boa Viagem, mas ele não gostava de ficar no Acaiaca, ali normalmente só a playboyzada acéfala se reunia... o negócio era ficar mais pra frente, na sussa, olhando o movimento, escutando um som e conversando com quem valia a pena.
O trabalho era bom, ele fazia o que gostava, ganhava bem, tinha tempo livre, a cidade era massa. O coração as vezes estava vago e as vezes não.
Mas o fato mesmo é que Luciano só tinha uma mulher certa até o fim da vida. Aos 30 anos, ele fez promessa, no dia de Nossa Senhora da Conceição ele prometeu que Recife seria sua mulher, só haveria de casar com essa cidade e com mais ninguém. Chegou cedo e lá debaixo da ladeira fumou um baseado e tomou alguns tragos de cachaça. Eram muitos romeiros, pessoas de muita fé que vinham agradecer e se martirizar pelas mais diversas graças concedidas pela santa. Já bastante alcoolizado Luciano enfrentou o mar de gente que se vestia de branco e de joelhos subiu até em cima do morro. Joelhos não haviam mais, mas ele estava feliz porque tinha concluído aquilo que entendia como seu desafio pessoal.
Isso mesmo, desafio pessoal, pois embora Luciano tivesse adoração pela cidade ele não era um homem de fé, ele era de certo modo um cético, que respirava tudo e curtia tudo, mas mantinha um olhar distanciado do aspecto religioso das coisas...
Acontece que promessa é dívida e não é preciso que acreditemos nas coisas para que elas sejam verdade, elas apenas são, independente e indiferente a nossa concepção.
Naquela noite, Luciano chegou em casa sem se lembrar como, joelhos esfolados e ensangüentados, febre que não cessava e uma dor de cabeça como ele jamais havia sentido antes. Deitou-se na cama imundo e desnorteado como estava e tentou dormir, mas não conseguiu. Pensamentos confusos se passavam por sua mente e imagens das mais diversas apareciam... um mar de gente, rostos, roupas brancas, cheiro de suor, mãos enrugadas,lagrimas, terços, sorrisos e gargalhadas de um morro que parecia abrir sua boca numa mistura de escárnio e total desespero num desejo de engolir Luciano...
Assim foi a noite toda até que o dia raiou. Uma paz súbita invadiu seu coração. Já não sentia dores na cabeça, a febre se foi e seus joelhos misteriosamente não tinham se quer um arranham.
Feliz por estar bem, mas incrédulo por não entender como, ele saiu apressadamente de casa e foi trabalhar. Ao entrar em seu carro e olhar pelo retrovisor não viu seu rosto... o que ele viu foi....
-Não. Não dava pra acreditar. Não era seu rosto, era a cidade, seu rosto não havia mais. O que se via era a cidade, suas ruas, vielas, praças e toda a gente nela, seus cheiros, favelas, prazeres e horrores.
Promessa é dívida.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Mulheres
As vezes fico perdido... fico tentando achar a melhor maneira pra dizer algo pra ela.... fico pensando coisas como: " se eu falar tal coisa de tal jeito, ela vai entender errado, entao é melhor eu falar de tal outro jeito... ou talvez seja melhor falar outro dia.... ou talvez seja melhor falar hoje mas numa outra hora... ou talvez seja melhor mudar a intonação da voz... ou... talvez seja melhor nem falar."
Ah essas mulheres!
Ah essas mulheres!
quinta-feira, 21 de maio de 2009
O medo de rir
Eu faço coisas de assustar.
Eu digo coisas de assustar.
Eu penso coisas de assustar.
Mas hoje não. Hoje, eu te trouxe uma rosa. E um sorriso.
Eu digo coisas de assustar.
Eu penso coisas de assustar.
Mas hoje não. Hoje, eu te trouxe uma rosa. E um sorriso.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
A mentira
Eu te visto com as roupas dela
E te perfumo com o perfume dela
Dança pra mim? Eu posso pagar.
Olha pra mim? Eu posso pagar.
Fala que me ama. Eu posso pagar.
Toca em mim. Eu posso pagar.
Tá sentindo? É o meu coração batendo.
É, eu tenho um coração. E posso pagar.
E te perfumo com o perfume dela
Dança pra mim? Eu posso pagar.
Olha pra mim? Eu posso pagar.
Fala que me ama. Eu posso pagar.
Toca em mim. Eu posso pagar.
Tá sentindo? É o meu coração batendo.
É, eu tenho um coração. E posso pagar.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Lucy in the Sky with Diamonds
22 horas da noite, quinta-feira, abre uma caixa, tira de lá um papel alumínio dobradinho, abre; um papelzinho duro com o sorriso de uma moça estampado... um sorriso pra ele... papel na lingua... morde... passa no céu da boca, nas bochechas e deixa de baixo da língua até dissolver...
22:15 ônibus.... desce no cais de Santa Rita... vai andando pela rua Marins e Barros e cruza a ponte Primeiro de Março, olha pra estátua no topo da ponte... ela brilha... está extremamente acesa... tudo está muito brilhante... vai caminhando curtindo a paisagem noturna... chega na frente do Downtown... fila... um cara na sua frente faz perguntas, perguntas inúteis; “hoje é ladies free”? “quanto tá a entrada”? Meninas olham, meninos olham, tudo brilha... como diriam John e Paul: é tudo “Lucy in the Sky with Diamonds”...
O jornal do outro lado da rua roda nas máquinas... sangue e morte de hoje para o café da manhã de amanhã... o som é ensurdecedor ou só ele está achando?
Sobe uma onda de calor... é intenso... é extremamente intenso... é de pingar e molhar a camisa... em pé na fila... meninas olham, meninos olham, tudo brilha... como diriam John e Paul: é tudo “Lucy in the Sky with Diamonds”...
A fila caminha, lenta... bem lenta... um carro do outro lado abre a mala... tocando uma batida... o som é ensurdecedor ou só ele está achando?
Compra um vinho Carreteiro com o vendedor que fica com o isopor na frente... ganhando uns trocados da playboyzada...
O vento sopra... é como um lençol de seda tocando a pele bem de leve... é gostoso... é bem louco... as mãos geladas, o suor pingando... as pupilas dilatadas no limite... faz o olho ficar bonito.
O suor pinga... o olho brilha... as luzes brilham... como nunca... um cara na sua frente faz perguntas inúteis; “Demais a tua camisa, o que tem escrito mesmo”? – “Vodka, connecting people”.
Meninas filosofam sobre como solucionar um grande mistério; conseguir abrir uma garrafa de Smirnoff Ice... elas não abrem... ele abre. É... talvez isso seja... Vodka Connecting People.
A fila caminha, lenta... bem lenta... as luzes brilham, o suor pinga... a noite ainda estava pra começar... meninas olham, meninos olham... perto da porta da pra escutar o som rolando dentro da boate... da pra escutar forte...da pra escutar alto... a noite estava pra começar...Como diriam John e Paul: é tudo “Lucy in the Sky with Diamonds”.
22:15 ônibus.... desce no cais de Santa Rita... vai andando pela rua Marins e Barros e cruza a ponte Primeiro de Março, olha pra estátua no topo da ponte... ela brilha... está extremamente acesa... tudo está muito brilhante... vai caminhando curtindo a paisagem noturna... chega na frente do Downtown... fila... um cara na sua frente faz perguntas, perguntas inúteis; “hoje é ladies free”? “quanto tá a entrada”? Meninas olham, meninos olham, tudo brilha... como diriam John e Paul: é tudo “Lucy in the Sky with Diamonds”...
O jornal do outro lado da rua roda nas máquinas... sangue e morte de hoje para o café da manhã de amanhã... o som é ensurdecedor ou só ele está achando?
Sobe uma onda de calor... é intenso... é extremamente intenso... é de pingar e molhar a camisa... em pé na fila... meninas olham, meninos olham, tudo brilha... como diriam John e Paul: é tudo “Lucy in the Sky with Diamonds”...
A fila caminha, lenta... bem lenta... um carro do outro lado abre a mala... tocando uma batida... o som é ensurdecedor ou só ele está achando?
Compra um vinho Carreteiro com o vendedor que fica com o isopor na frente... ganhando uns trocados da playboyzada...
O vento sopra... é como um lençol de seda tocando a pele bem de leve... é gostoso... é bem louco... as mãos geladas, o suor pingando... as pupilas dilatadas no limite... faz o olho ficar bonito.
O suor pinga... o olho brilha... as luzes brilham... como nunca... um cara na sua frente faz perguntas inúteis; “Demais a tua camisa, o que tem escrito mesmo”? – “Vodka, connecting people”.
Meninas filosofam sobre como solucionar um grande mistério; conseguir abrir uma garrafa de Smirnoff Ice... elas não abrem... ele abre. É... talvez isso seja... Vodka Connecting People.
A fila caminha, lenta... bem lenta... as luzes brilham, o suor pinga... a noite ainda estava pra começar... meninas olham, meninos olham... perto da porta da pra escutar o som rolando dentro da boate... da pra escutar forte...da pra escutar alto... a noite estava pra começar...Como diriam John e Paul: é tudo “Lucy in the Sky with Diamonds”.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
O Rei de Areia
Numa praia, num sábado, de manhã cedinho... balde e pazinha na mão... concentrado... elaborando e executando um complexo trabalho de arquitetura... e...
- O que você está fazendo?
- Eu estou fazendo um castelo de areia.
-Hum... legal.
- É sim. Quer brincar comigo? Vamos fazer o castelo juntos. Eu posso ser o rei e você pode ser a rainha...
- É? Então tá.
- Qual o seu nome? O meu é Renato.
- Carolina.
- Então rainha... nosso castelo vai...
- Carol?!
- Oi mãe!
- Vem aqui pra água filha!
- Tô indo!
Ela saiu correndo... pisou a torre... nada mais de castelo... tanto trabalho... Renato pensou que poderia refazer (sempre é possível recomeçar). Mas, pra que refazer mesmo? A maré subia, logo iria acabar com o castelo de novo.
A água é mais forte que o castelo, e não havia mais rainha. E na verdade, na verdade mesmo; não se tem castelo nem rainha, quando se é, um rei de areia.
- O que você está fazendo?
- Eu estou fazendo um castelo de areia.
-Hum... legal.
- É sim. Quer brincar comigo? Vamos fazer o castelo juntos. Eu posso ser o rei e você pode ser a rainha...
- É? Então tá.
- Qual o seu nome? O meu é Renato.
- Carolina.
- Então rainha... nosso castelo vai...
- Carol?!
- Oi mãe!
- Vem aqui pra água filha!
- Tô indo!
Ela saiu correndo... pisou a torre... nada mais de castelo... tanto trabalho... Renato pensou que poderia refazer (sempre é possível recomeçar). Mas, pra que refazer mesmo? A maré subia, logo iria acabar com o castelo de novo.
A água é mais forte que o castelo, e não havia mais rainha. E na verdade, na verdade mesmo; não se tem castelo nem rainha, quando se é, um rei de areia.
terça-feira, 24 de março de 2009
O contador
Ele sempre foi pragmático, mesmo quando pequeno nunca se preocupou muito em entender os porquês. Queria obter os resultados e só. Esse era o foco.
Sua forma direta de pensar o levou a ter bom desempenho escolar com números. Aos 23 anos já estava formado em contabilidade e trabalhava num grande e conhecido escritório de contabilidade na cidade do Recife.
Nunca se casou (sempre achou que as mulheres são extremamente complexas, exigem muita atenção e cuidado, nunca estão satisfeitas, choram, perguntam demais e claro, tem TPM). Por isso, preferia ter relações curtas, que ele, acabava rapidamente assim que se tornavam um incômodo.
Ganhava a vida tratando dos valores monetários que empregados de empresas tinham direito a receber, seja por anos de serviço, seja por indenizações, etc.
O lema do escritório era um só: Faça os cálculos com cuidado e atenção para que as empresas contratantes sempre tenham de pagar o mínimo possível aos empregados descontentes.
Nunca se questionou a respeito do serviço que produzia, apenas gostava de ser o melhor. E era. Mas, o tempo passou, e hoje já está com 58 anos. Trabalhando na mesma empresa, porém num cargo de diretoria, fato esse que embora lhe garantisse um salário bem mais generoso, lhe deixava profundamente descontente, pois precisava tomar decisões que muitas vezes exigiam reflexões sobre o futuro do escritório. E muitas dessas decisões não tinham relação direta com números.
Mas hoje, ainda em casa, após acordar, sentiu, um sentimento, que não estava muito bem acostumado, não sabia para onde ia, nem o porque. Um aperto no coração, uma mistura de euforia, alegria e tristeza e uma súbita vontade de chorar. Achou um pouco patético, não experimentava aquilo desde... desde... o seu aniversário de 7 anos de idade, dia em que sentiu-se estranhamente humano.
É que seu avô havia lhe dado uma flauta pan como presente de aniversário. Uma flautinha de plástico, de 12 furos que produzia sonoridade bastante característica. Nesse dia ele foi extremamente feliz, tocava o instrumento aleatoriamente e se encantava com os sons que produzia. Para ele, todos esses sons eram melodias que, na sua cabeça, se encaixavam perfeitamente e expressavam sua interação com o mundo. Percebeu ali o quanto seu avô o amava. E viu no rosto do velho, um grande sorriso de satisfação, que ficou guardado no fundo de sua cabeça.
Ter mentalmente revivido todo esse redemoinho de lembranças e sensações, fez com que buscasse, debaixo de sua cama, a velha caixa a onde, ainda guardava algumas poucas recordações do seu passado, dentre elas a flauta pan, e um retrato seu ao lado do velho que lhe sorria sereno.
Foi trabalhar normalmente, carregava no bolso do paletó a flauta, que colocou sob sua mesa assim que chegou ao escritório.
Abriu sua agenda, ligou o computador verificou as pendências do dia, pediu a secretária um café.... reunião às 9 com o atual dono da empresa, corte de custos, planilhas, empregados que solicitam aumento, fofocas de escritório, bláblá bláblá bláblá...
Fazia muito calor em Recife, era um dia lindo, numa cidade linda, o terno lhe pesava uma tonelada, e o suor começou a pingar. Escorria primeiro das laterais da cabeça, pegando pelas têmporas e descia pescoço abaixo, molhando o colarinho... aquilo não era normal. Ele não era normal... aquelas pessoas... não eram normais... aquelas conversas... aquelas preocupações... nada daquilo era belo... nada daquilo valia... Ele tinha trabalhado 35 anos sem pensar, 35 anos... 420 meses, ao menos, 12.600 dias...302.400 horas! De números... de números e nada mais... O que diria seu avô? O que diria aquele menino que ele uma dia foi? O que ele poderia ser hoje? E o que não foi?
Grande feito! O melhor contador do escritório! O mais eficiente! Centenas e centenas de empresas beneficiadas e satisfeitas... vidas e vidas frustradas, limitadas, encurtadas... por números.
Tirou o terno rapidamente, ficou de cuecas e meias apenas, pegou a flauta e as chaves do carro. O fim da tarde estava chegando... queria ver o mar e o sol se deitar por trás dos feios arranha-céus que teimavam em desafiar Deus na orla de Boa Viagem.
Colocou a flauta na boca e tocava acordes mágicos enquanto olhava bem nos olhos de cada um dos colegas de trabalho e dizia:
- Dona Cláudia, sorria, esse é pra você
- Oscar, esse aqui é pra você...
- Patrícia... João... Maria...
E assim foi até pegar o carro... dirigiu até a orla, entrou no mar sentindo a água morna e gostosa enquanto tocava sua flauta pan, tinha a certeza de que o velho ficaria feliz, e sorriria mais uma vez para ele. De costas para o mar, mas curtindo a água... sorria e tocava sua flauta pan e via o sol se por por trás dos feios arranha-céus que teimavam em desafiar Deus na orla de Boa Viagem.
Sabia que agora poderia contar... histórias.
Sua forma direta de pensar o levou a ter bom desempenho escolar com números. Aos 23 anos já estava formado em contabilidade e trabalhava num grande e conhecido escritório de contabilidade na cidade do Recife.
Nunca se casou (sempre achou que as mulheres são extremamente complexas, exigem muita atenção e cuidado, nunca estão satisfeitas, choram, perguntam demais e claro, tem TPM). Por isso, preferia ter relações curtas, que ele, acabava rapidamente assim que se tornavam um incômodo.
Ganhava a vida tratando dos valores monetários que empregados de empresas tinham direito a receber, seja por anos de serviço, seja por indenizações, etc.
O lema do escritório era um só: Faça os cálculos com cuidado e atenção para que as empresas contratantes sempre tenham de pagar o mínimo possível aos empregados descontentes.
Nunca se questionou a respeito do serviço que produzia, apenas gostava de ser o melhor. E era. Mas, o tempo passou, e hoje já está com 58 anos. Trabalhando na mesma empresa, porém num cargo de diretoria, fato esse que embora lhe garantisse um salário bem mais generoso, lhe deixava profundamente descontente, pois precisava tomar decisões que muitas vezes exigiam reflexões sobre o futuro do escritório. E muitas dessas decisões não tinham relação direta com números.
Mas hoje, ainda em casa, após acordar, sentiu, um sentimento, que não estava muito bem acostumado, não sabia para onde ia, nem o porque. Um aperto no coração, uma mistura de euforia, alegria e tristeza e uma súbita vontade de chorar. Achou um pouco patético, não experimentava aquilo desde... desde... o seu aniversário de 7 anos de idade, dia em que sentiu-se estranhamente humano.
É que seu avô havia lhe dado uma flauta pan como presente de aniversário. Uma flautinha de plástico, de 12 furos que produzia sonoridade bastante característica. Nesse dia ele foi extremamente feliz, tocava o instrumento aleatoriamente e se encantava com os sons que produzia. Para ele, todos esses sons eram melodias que, na sua cabeça, se encaixavam perfeitamente e expressavam sua interação com o mundo. Percebeu ali o quanto seu avô o amava. E viu no rosto do velho, um grande sorriso de satisfação, que ficou guardado no fundo de sua cabeça.
Ter mentalmente revivido todo esse redemoinho de lembranças e sensações, fez com que buscasse, debaixo de sua cama, a velha caixa a onde, ainda guardava algumas poucas recordações do seu passado, dentre elas a flauta pan, e um retrato seu ao lado do velho que lhe sorria sereno.
Foi trabalhar normalmente, carregava no bolso do paletó a flauta, que colocou sob sua mesa assim que chegou ao escritório.
Abriu sua agenda, ligou o computador verificou as pendências do dia, pediu a secretária um café.... reunião às 9 com o atual dono da empresa, corte de custos, planilhas, empregados que solicitam aumento, fofocas de escritório, bláblá bláblá bláblá...
Fazia muito calor em Recife, era um dia lindo, numa cidade linda, o terno lhe pesava uma tonelada, e o suor começou a pingar. Escorria primeiro das laterais da cabeça, pegando pelas têmporas e descia pescoço abaixo, molhando o colarinho... aquilo não era normal. Ele não era normal... aquelas pessoas... não eram normais... aquelas conversas... aquelas preocupações... nada daquilo era belo... nada daquilo valia... Ele tinha trabalhado 35 anos sem pensar, 35 anos... 420 meses, ao menos, 12.600 dias...302.400 horas! De números... de números e nada mais... O que diria seu avô? O que diria aquele menino que ele uma dia foi? O que ele poderia ser hoje? E o que não foi?
Grande feito! O melhor contador do escritório! O mais eficiente! Centenas e centenas de empresas beneficiadas e satisfeitas... vidas e vidas frustradas, limitadas, encurtadas... por números.
Tirou o terno rapidamente, ficou de cuecas e meias apenas, pegou a flauta e as chaves do carro. O fim da tarde estava chegando... queria ver o mar e o sol se deitar por trás dos feios arranha-céus que teimavam em desafiar Deus na orla de Boa Viagem.
Colocou a flauta na boca e tocava acordes mágicos enquanto olhava bem nos olhos de cada um dos colegas de trabalho e dizia:
- Dona Cláudia, sorria, esse é pra você
- Oscar, esse aqui é pra você...
- Patrícia... João... Maria...
E assim foi até pegar o carro... dirigiu até a orla, entrou no mar sentindo a água morna e gostosa enquanto tocava sua flauta pan, tinha a certeza de que o velho ficaria feliz, e sorriria mais uma vez para ele. De costas para o mar, mas curtindo a água... sorria e tocava sua flauta pan e via o sol se por por trás dos feios arranha-céus que teimavam em desafiar Deus na orla de Boa Viagem.
Sabia que agora poderia contar... histórias.
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