Ele tinha 14 anos, ela tinha 13 estudavam na mesma sala no colégio... os coleguinhas não sacavam qual era a daquele garoto introvertido, que não gostava de futebol, nem filmes do rambo... ele gostava de cinema europeu, fellini, antonioni, bergman, filosofia, teatro e imaginar o que era o amor...
Ela era loirinha, tinha a pele bem clara, os cabelos cacheados e os olhos castanhos cor de mel e os lábios dela.... os lábios dela eram pequenos e carnudos.... eternamente avermelhados e com uma espécie de brilho que não ia embora nunca... e era inevitável para ele olhar aquela boca e imaginar como seria dar um beijo nela... e dava vontade de morder... deveria ter gosto de cereja... só podia ser gosto de cereja... ele tinha certeza disso. Mas o fato é que ele nunca tinha beijado ninguém.
Ela também não, e ela olhava pra ele e só pra ele, nas aulas de educação física, ela ficava na arquibancada pra ver ele jogar (ou tentar jogar) bola. Aquilo era uma tortura pra ele que não manjava nada com a bola, mas era obrigado pelo professor a jogar. Saber que ela todos os dias estava tão perto e tão longe era um desafio. Um desafio que ele sabia que iria perder graças ao monstrinho da timidez... o ano terminou e ela mudou de colégio e eles nunca mais se viram. Isso já faz 14 anos.
Esse fim de semana eu fui assistir ao festival de cinema francês no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco.
Enquanto eu tomava um café sentado numa mesa, ele chegou, vi que ele chegou com pressa, veio sozinho e estava em cima da hora da sessão que já ia começar, ao parar na frente da bilheteria, ela estava lá, de mãos dadas com o namorado comprando o ingresso para o filme.
A pressa dele era tanta que esbarrou de frente com ela... ao se tocarem perceberam um ao outro e todas as lembranças vieram a tona novamente. Ela largou a mão do namorado. Sem saber exatamente o porque.
Ele disse "oi", e ela respondeu "oi". -Eles estudaram juntos na mesma sala durante apenas 1 ano. Eram 14 anos sem se ver. E na verdade, durante todo o ano que estudaram juntos, jamais trocaram palavra, e nesse dia eles disseram oi.
Ele sorriu, ela sorriu. Ele beijou a boca dela e foi bom.
-Você não tem gosto de cereja, mas é bom.
Ela ficou calada.
Ele entrou no cinema e o namorado atônito e claramente aborrecido e confuso pedia explicações e ela respondeu:
- É que ele não é mais tímido.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
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"Ele beijou a bo CADELA e foi bom"
ResponderExcluirFreud diria, talvez, que seu inconsciente andou esticando alguns tentáculos...