segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Feliz ano novo

Eles se conheceram na praia. Antônio era de fora, embora fosse de Recife. Quero dizer que é alguém que não pertence a lugar nenhum específico e ao mesmo tempo pertence a vários lugares.

Nesse dia, ele tinha surtado. Estava numa nóia antisocial.... desligou o celular, desconectou o computador e decidiu que não veria ninguém no dia de ano novo. Isso mesmo... pegou o carro e foi pruma praia chamada Toquinho, chegou lá no começo da noite. Uma praia praticamente privada, que nessa época do ano está isolada. Estranhamente ninguém aparece por lá.

Ele pulou o muro de uma das casas e conseguiu chegar na areia da praia e viu o mar... um mar que parecia tão enegrecido e sem fim quanto ele se sentia por dentro.

Tinha uma garrafa de vinho na mão e já foi bebendo enquanto caminhava em direção a água. Ele escutava o barulho do mar revolto e sentia o desprendimento das gotinhas da água fria que salpicavam seu rosto mesmo ainda que de uma certa distância...

Estava descalço, molhou os pés na água curtindo o momento e a clareza de que apenas o som do mar podia ser ouvido, ele tinha a certeza de que não tinha mais ninguém ali e se sentia bem por isso.

Tirou a roupa, tomou todo o vinho, de uma só vez, como se fosse vital como respirar. num pedaço de papel que estava no bolso da calça escreveu uma mensagem e colocou dentro da garrafa.

Completamente embriagado entrou no mar. Garrafa na mão e lutando com a corrente fria e bebendo muita água salgada. Conseguiu finalmente ficar longe da costa, entre soluços e gargalhadas jogou a garrafa mar a dentro. Queria ficar mais ali, mas percebeu que se não voltasse naquele exato momento, não voltaria mais. Então depois de muito esforço conseguiu chegar na areia. Exausto.

Ficou lá deitado. De olhos fechados curtindo o som do mar e a estranha sensação de adquirir uma nova "pele" feita da areia que se agarrava a ele.

- Oi tudo bem? Vem sempre aqui?

Achou que era loucura, mas percebeu que alguém de fato falava com ele. Abrindo os olhos viu essa mulher, trajando um vestido longo e azul...um azul diferente de tudo que ele já tinha visto.

Ela tinha por volta de uns 36 anos, cabelos castanhos bem longos e uma pele morena. Não era exatamente bonita. Mas ela tinha alguma coisa extremamente difícil de se traduzir em palavras e que era de fato magnético.

De cara ele achou que seria Iemanjá. Mas percebeu que não quando ela disse que se chamava Lara e que os país dela eram os donos da casa logo em frente a onde ele estava deitado.

Eles começaram a conversar, Lara tinha uma erva e fumaram na areia enquanto ela lhe dizia que assim como ele, ela também estava cançada de tantos anos novos (afinal todo ano era a mesma coisa, vinha um novo ano e acabava com a ano anterior).

Eles se entenderam muito bem e Lara que estava sozinha em casa, convidou o estranho pra entrar, beberam ainda mais e pouco antes da meia noite estavam transando. E...

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Algo realmente se acendeu naquela hora e no ápice ele acordou. Percebeu que estava em sua própria casa. Havia sonhado, dormido o dia inteiro, eram 23:30 no relógio de cabeceira.

Ele se levantou como estava. Entrou no carro e correu perigosamente até a beira mar de boa viagem... Em meio a devotos de iemanjá, familias e crianças de branco ele entrou no mar, decidido a ir até o fundo, nadava enlouquecido... quem estava na beira da praia não entendia qual o objetivo daquele cidadão, que nadava em direção ao alto mar com uma determinação tal, que até parecia que sua vida dependia disso...

É que ele estava decidido a encontrar Lara.

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